Nosso Cantinho

domingo, 30 de setembro de 2012

Carta número um: parte 1a


Esse é o primeiro fragmento da primeira carta que Kassiani escreveu a Ahuizotl. Esse casal será o nosso protagonista. Mais que um conto sobre o amor, é uma relato de duas vidas transformadas, de alguma forma, pela presença dele.






Dear  Ahuizotl,

          Dizem que a esperança é a única flecha que não pode partir e errar o alvo, às vezes, confesso, é o único bem que me resta. Meu arco está arqueado, a dúvida é maior do que a própria esperança que nele há e  lá escança  entretanto me falta coragem para lançá-la a mão. Não nos indispomos ontem por conta de minha possível estadia de 24 meses em OKINAWA, nunca nos indispomos por nada, e isso é bom, quase uma dádiva dos deuses. Eu me pergunto, é possível que o maior dos castigos possa nascer do maior dos presentes? Essa falta de confronto é terrível! Mentira!! Haveria confronto se eu não recuasse a cada vez que o percebesse eminente! Deus, perdoe-me se eu estiver errada, e tomara que errada eu esteja, mas eu sofro tanto por viver assim, e já creio que  Ele zomba de mim, pois sabe do poder que tem sobre este ser que o ama tanto. Por ele tudo, meu amado, incrivelmente tudo eu sou capaz de fazer. Talvez esse ato tão sublime não devesse ser unilateral, esperar, pelo menos, um leve desejo de reciprocidade não me parece um absurdo. Será que ele por mim faria o mesmo?
           É triste, é de chorar, constatatar, é isso: algo mudou. Não será em mim? Digo o problema, a perda do encanto. A poção do amor acabou? Abóbora, em algum instante todos seremos novamente para aquele rosto uma abóbora sem face sem graça? O meu ar romântico nitidamente se entregou, veste negro, antes otimista, sonhador e repleto de esperanças e de uma felicidade perpétua, hoje é pessimista e dramático, pois é romântico  O romantismo é o mal dos Homens, nada é pequeno para este lado, uma simples lembrança de uma data ou o seu recorrentes esquecimento toma proporções de um confronto nuclear eminente. Às vezes me cutuca o racional e diz, -es uma besta, mas diz timidamente, e continua, há que aprender a viver! Não queria ver nascer estas linhas tristes, isso é muito pior do que qualquer saudade. Eu confesso que sinto muito desse sentimento, mas é menor que o medo, este é voraz, e eu tanto medo! Perdê-lo para mim é pior do que a minha própria morte, sim eu sou uma mulher carente. Nesses momentos o melhor remédio é a amnésia  sim pura e completa, digo, retroativa até um dia antes de nos conhecermos. Será? Será mesmo melhor esquecer o vivido e viver, ou carregar as lembranças da perda na mala, na carteira, na carne e na alma. Às vezes eu desejo deveras o esquecimento, mas é menos recorrente do que o desejo de tê-lo sentido, o amor.
(CONTINUA)  (Helen)

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