Nosso Cantinho

domingo, 21 de outubro de 2012

Terça-feira



A manhã de terça

Naquela manhã eu não quis acordar, mas a voz irritante de minha progenitora fê-lo acontecer. Desperto tornei a encará-la como o carinho que as minhas posses permitiam. A queria morta, mas ela não sabia se entregar, nunca o soube. Tinha fibra aquela mulher, forte como um touro na juventude, hoje é apenas um espectro, mas ainda sim é fisicamente mais forte do que eu. O bom dia saiu seco, a réplica também, nós nos amávamos com o fel dos desesperados. Tomei um gole de café e me coloquei rumo ao metrô. Não sei por qual razão, mas queria ver Dollores. Será que havia em mim algo admirável  Sentiria eu falta de alguém? E por que logo de alguém como Dollores? Essas e outras indagações me visitavam no decorrer das três estações que me separavam do meu destino.
O percurso da estação até o imponente e espelhado prédio governamental foi norteado pelo pensamento nela, Dollores. Ao entrar no elevador o ascensorista me sorriu com os dentes amarelos e entortando um sorriso mais torto que os seus caninos. Sobre tal mal caráter eu lhes direi em hora oportuna. Vigésimo sexto andar, saímos eu e a velha e hipócrita Matilde de La Veccia, outra que merece um aparte futuro.
Após bater ponto no meu terminal fui ao biombo de Dollores que fica no outro estremo da repartição. Antes de chegar à terra de Dollores ouvi três ou quatro, sabe da última? Fulaninha deu para fulaninho! Viu a novela ontem, etc. É inegável que as duas maiores riquezas de uma repartição pública são a fofoca e a intriga, e que raras vezes deixam a tão frutífera relação simbiótica. Chegando finalmente ao biombo da menina ruiva, este estava estranhamente vazio. Dollores não era de faltar, lembro-me somente uma vez, quando fraturara a bacia em circunstâncias suspeitíssimas. O adorável russo flagrou o espanto em meu pálido rosto, e soltou o seu nefasto veneno:
– A sua namoradinho não veio hoje, mas eu a vi no caminho do trabalho! Será que ela se perdeu? Foi atropelada? Assaltada? O que será que aconteceu com a cabelos de fogo? Por um instante pensei eu em lhe dirigir a palavra, mas naquele momento eu estava deveras preocupado com alguém. Isso me fez gelar a alma. Mais do que a idéia de uma possível má sorte de minha companheira de trabalho, isso me fez gelar a alma. Seria isso possível?

Talvez existisse alí naquela despretensiosa manhã de terça-feira um fio de esperança para mim. Por alguns instantes eu me vi imortal como todos os mortais, podia sentir a presença de algo maior do que eu, a falta! A falta que me fora sempre ausente, eu a pude sentir. Essa falta, necessariamente me prenderia à vida, pois vale a pena viver se sentirmos falta de alguém vivo. Mas será que a minha doce e linda menina estaria viva? A sua morte me arremeçaria sem dúvidas aos braços de Hades. Ah Hades que sempre flertou comigo com um sorriso companheiro! Hoje, se a sorte ousar me sorrir, estarei liberto finalmente.
 Ponteiro dos segundos em sua rota incansável petrificou-me o horas, eis que entra em cena Dollores. Eram exatamente 8:12:05. Como explicar aquilo que senti, estava radiante ao vê-la, feliz e triste, pois morrera novamente com o último suspiro a falta que me fiz vivo por alguns instantes desde que despertava. Nesse breve instante de vida vi campos verdes repletos do que há de mais belo e sublime, pudico rubrei ao ter tais pensamentos em formas de delírios.
–Nossa, atrasar-me hoje, pois sai mais tarde. Isso me basto para desprezá-la. O russo novamente deixou o seu recado, o teu bebê sentiu tanto a tua falta, disse ele nitidamente se deleitando com cada fração de palavra. Ah meu querido, não quis preocupar-lhe, perdoá-me, por favor, ela me dizia isto com a cara mais doce e estúpida do mundo, algo estremamemente natural para ela. - Não há com o que se desculpar senhorita Dollores, fui propositalmemente informal, a final não é a minha face que as deve proclamar tais amorosidades. Continuei: -Nada temos que nos ligue nem de longe. Eu naquele momento, percebei-me o maior dos mentirosos, pois o que nos ligava era indelével, mas indecifrável para mim.
Retornei ao meu biombo, havia mundo o que fazer, não que fizesse alguma diferença para alguém se eu nada fizesse. E foi exatamente aquilo que fiz, nada. Permaneci pensando, sempre me flagrafa assim em casa e o meu senso de dever não me permitia fazê-lo em horário de trabalho, mas o fiz. Por que aquela falta? E isso me tomou horas, doía-me o peito, algo incrivelmente físico me cortava a carne. Quando o relógio dizia que eram 12, Dollores convidava-me para o almoço. A nossa visão no meio do passeio era uma cena grotesca, todos nos olhavam, eu gozava amiúde esses momentos. Pessoas como eu adoram ser ridículas, expor a todos o grotesco, não por desejar comentários mais grotescos ainda, mas por mostrar-lhe aquilo que eles são; cegos, surdos e rotos, pois compram o que vêem. E eles nos compravam, pilhérias a cada instante. Dollores, pobrezinha, rubrava, tendia a corcurdar-se de vergonha. Sobretudo quando muitas vezes eu pegava as suas mãos. Ali ela era presa de todos os olhares, presa de todos os lados. Meu incongruente leitor, talvez você diga com aquele sorriso de quem percebeu algo no ar, ele deseja à Dollores, a quer para si. Sim eu a desejei naquela terça-feira, a desejei, sim a quis como minha Dollores. Percebi a maciez de suas mãos, a delicadeza de seu andar, percebia tudo como a mais bela e sublime cena. Mas não se enganem, pois sabia que eu mesmo me enganava, aquilo não iria durar. E quem não o fez? Quem deliberadamente esperdiça essa oportunidade? Enganar-se se entregando ao gozo efêmero da perda da realidade própria.
No almoço não ouvi quaisquer palavras que Dollores dizia, em verdade dizia pouco. Estava a viver momentos de vida inventada! Inventei tardes de cinema, noites de jantares, manhãs após orgias nossas. Tínhamos 2 filhos varões, casamos às pressas, pois ela já se encontrava grávida de Matheus. Às pressas, mas completamente felizes. Havia pouco para comer quando Thiago nasceu, menino robusto de bochechas roliças, seria um atleta com certeza. Infelizmente perdeu-se no estudo e não deu em nada. Mas Matheus, que nascera franzino, surpreendeu a todos, tornou-se um dos maiores saltadores de longa distância que essa terra já viu. Os anos correram rápidos, mas generosos para nós. Tínhamos netos lindos como todos os netos devem ser, e os mimávamos com todo o amor que somente os avôs possuem. Amor de avôs é amor em dobro, isso explica tudo. Então o que você acha de pedirmos um pudim, dizia Dollores me expulsando de minha vida inventada? Não imagino quanto tempo estive ausente, nem quanto tempo demorei até responder a pergunta do pudim, não podia fazê-lo antes de deixar os meus netinhos na escola. Comi o pudim de leite e sorri com os olhos fitando os de Dollores. Coloquei a minha mão direita sobre a contrária dela, e ela rubrou novamente. Não lembro ao certo o que eu disse, mas posso jurar que a pedi, ali mesmo, em casamento. Até hoje não sei se o fiz! Lembro-me, perfeitamente, que Dollores fez uma cara de espanto banhada de horror e apetou a minha mão como se a desejasse por contra o peito, suspirou e desatou a chorar. As lágrimas jorravam em abundância, não posso afirmar o que havia naquelas gotas que foram seguidas de soluços e grunidos. E ciciando ele me pediu perdão.

Matheus não nascerá, berrou Dollores! E continuou, não entrará neste mundo cão, de vozes vãs, dores várias e esse legado não o darei! Estas palavras, o pudim, as lágrimas, tudo penetrava em mim intensamente e eu quase deixei-me chorar. Mateus morrera em meu ventre, morrera ouvindo os meus lamentos, aos prantos Dollores soluçava. E quem há  negar que sou tão mãe quanto Maria e Medéia? Matheus não nascerá, repeitiu Dollores descontroladamente, desta vez. Minha Dollores era outra naquele instante, já não era possível percebê-la aquela estupida de todos os dias. A falta da estupidez em seu rosto fê-lo a mais bela e sublime das visões. Matheus este punhado de células mortais será eterno, um mártir à liberdade à tua liberdade Dollores, agora eu que berrava. Eu não pude esconder o gozo e o orgulho estampados em meu pálido rosto, e sorri. Matheus morrera para dar vida à minha fantoche, pensei comigo mesmo! Então quer ou não um pedaço de pudim? Novamente era Dollores a abrir a porta do outro mundo, e finalmente aceitei o pudim. Enterrados os mortos e os vivos tomamos o rumo do trabalho. Na volta Dollores era apenas a Dollores, mas eu era de alguma forma, outro pois aquela outra realidade me fazia falta, embora eu não a tomasse como pleito de vida, pois nela não haveria nada diferente dentro de mim, e bem que é por dentro que se muda deveras a realidade, a idéia de me enganar só mais um pouquinho era tão prazerosa, e me deixei novamente me enganar, peguei na mão de Dollores.

Terça à noite

Ao chegar em casa minha adorável mãe agonizava. O sangue lhe escorria pela boca, eram mais uma de suas recorrentes, mais infelizmente não letais crises. Deixa-me lhe falar um pouco sobre esta senhora.


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